editorial de uma renúncia

Do dia em que acordei e tive uma leve impressão de que nada era assim tão grave...

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quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Da série ErosGrafia - parte IV

Em meio a uma saudade sôfrega, a uma vontade urgente, a um desejo impaciente, agarro você com a indelicadeza dos desesperados, daqueles que têm uma sede que se sabe irreprimível, e te puxo pelos cabelos por vontades indomáveis de meus dedos que por vezes te querem tanto quanto eu quero, e me desfaço de suas peles para recobri-la de mim.

Lá de dentro das respirações entrecortadas por rangidos lembro-me de você caminhando em minha direção. Eram passos assim tão dialéticos que me sabiam encontrar, mas talvez não; que me queriam seguir, mas desviavam; e acabavam por esbarrar em mim como se o acaso construído fosse dotado de sabores clandestinos, com notas de um bem-querer ordinário, deliciosamente salpicadas na ponta da língua, a despeito de todas as recomendações do destino que se faziam contrárias.

E por falar em sabores, quero muito saber de onde vêm estes teus, de quando minha língua se perde na pronúncia singular de seus idiomas secretos, e eu, estrangeiro deslumbrado, vou tateando as falas de seu corpo em busca de uma mais profunda compreensão.

E adentro.

E enquanto a luz da luminária e a noite do interior do quarto discutem veementemente, tentando nos encobrir cada qual com o manto que lhes cabe ter – ora escamoteando seus contornos, ora exaltando suas curvas – esbarro na satisfação de seu olhar espremido, fingindo acanhado, as pálpebras semi-serradas, olhar de gueixa a construir o mesmo acaso dos passos que te conduziram até mim. E dali, lá de dentro das respirações sincronizadas, eu aprendo a valiosa lição de que sexo bom é o que se faz, primeiramente, com os olhos.